Bagaço de azeitona – soluções locais para um desafio nacional

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Bagaço de azeitona – soluções locais para um desafio nacional

Portugal ocupou, em 2019, a 7ª posição mundial de produção de azeite e, tendo em conta o aumento da superfície do olival e da produção da azeitona dos últimos 10 anos, acredita-se ter potencial para chegar à 3ª posição mundial em 2030. Na região norte do país concentra-se cerca de 15% da produção de azeitona, sendo anualmente produzidas cerca de 80.000t de bagaço de azeitona, um resíduo pastoso, com grande percentagem de humidade, anaeróbico e fitotóxico, que causa grande perturbação nos ecossistemas da região.

O Bagaço de azeitona é encaminhado para empresas para extração de azeite e óleo de bagaço de azeitona, havendo também algum aproveitamento como biomassa para produção de energia por combustão. Esta solução traduz-se também num elevado impacto ambiental e a falta de alternativas causa constrangimentos durante a campanha, traduzindo-se numa despesa para os lagares. Tendo em conta a tendência de aumento de produção, este problema deverá sofrer um agravamento muito significativo sendo, portanto, imperativo encontrar soluções alternativas, economicamente viáveis e com menor impacto ambiental.

Nos últimos dois anos o grupo ECO – Ambiente de Montanha e Gestão de Ecossistemas, do MORE CoLAB, em colaboração com diferentes equipas do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), tem trabalhado em conjunto com diversas entidades para encontrar soluções que permitam diversificar o aproveitamento do bagaço de azeitona tendo em vista a sustentabilidade, a economia circular e a aposta na agricultura biológica. Está assim em curso o desenvolvimento de três soluções diferentes para o bagaço: a compostagem (projeto BIOma: Soluções integradas de BIOeconomia para a Mobilização da cadeia Agroalimentar), a produção de rações animais (projeto BisOlive: Uso de bagaço de azeitona na alimentação de suínos da raça Bísara.) e a produção de biochar (projeto Bagaço+Valor: Tecnologia limpa para a valorização do subproduto do bagaço de azeitona na indústria extratora de azeite).

No âmbito do projeto BIOma, foi já concluído o processo de desenvolvimento e produção de um composto orgânico –  CompOlea, um fertilizante orgânico (de classe A), no qual se destaca o seu papel como condicionador do solo, com uma percentagem significativa de percursores de ácidos húmicos e o consequente potencial de incorporação de matéria orgânica no solo, assim como um notável aumento da estabilidade de agregados (em cerca de 20%, ensaios a microescala); tanto no processo produtivo do composto como os ensaios de campo. Dado o elevado risco de desertificação da região do Nordeste Transmontano, cujos solos são na sua maioria leptossolos, a aplicação do CompOlea pode revelar-se como uma ferramenta de gestão para atingir os objetivos do Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação (PANCD).

O objetivo que se segue é motivar os lagareiros da região a aderir ao serviço de produção de composto à base de bagaço de azeitona, estando depois os produtores habilitados a utilizar a marca corporativa CompOlea para sua comercialização.

A solução das rações animais, no projeto BisOlive, está também a revelar-se promissora, uma vez que os resultados dos ensaios realizados no IPB e na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro – UTAD não apontam para efeitos prejudiciais nos parâmetros zootécnicos avaliados e na qualidade da carne e dos produtos de fumeiro, da incorporação de bagaço de azeitona numa ração animal para porco bísaro. Foi já determinada uma percentagem ótima de incorporação, que foi também testada em campo. De seguida o objetivo é criar rotas de curta distância entre lagares e suiniculturas para fornecimento de bagaço e determinar a pegada de carbono deste processo, numa tentativa de quantificar o contributo do BisOlive para a redução de emissões de CO2, em relação às rações tradicionais. Pretende-se igualmente desenvolver um novo modelo de negócio, baseado numa eco-etiqueta, que garanta a rastreabilidade da carne, valorize as raças autóctones e contribuía para a economia circular.

Por fim, numa tentativa de reduzir o impacto ambiental da indústria extratora de óleo de bagaço de azeitona, o projeto Bagaço+Valor surge para desenvolver um processo de produção de biochar de bagaço de azeitona para tratamento dos efluentes desta indústria. Conseguiu-se já produzir um biochar com elevada superfície específica, cujo processo de desenvolvimento, a cargo do IPB, se encontra em fase de proteção industrial. Estão ainda a ser desenvolvidos os diferentes tratamentos físico-químicos para o tratamento das águas residuais desta indústria, além da monitorização das águas.

O grupo ECO, pretende continuar a desenvolver esta temática e irá já aplicar conhecimento adquirido nos projetos BIOma e Bagaço+Valor, no projeto SOILING- Soluções inovadoras de base natural para restauro de serviços dos ecossistemas em áreas degradadas pelo grande incêndio de Picões, Portugal, em conjunto com a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e o IPB. Com este projeto, financiado pelo Programa Ambiente, Alterações Climáticas e Economia de Baixo Carbono dos EEA Grants e que inicia em julho de 2022, o objetivo é utilizar biochar e composto à base de bagaço de azeitona, assim como crostas biológicas, para promover o restauro ecológico dos solos florestais degradados, numa área com elevado risco de erosão fustigada pelo grande incêndio de Picões.

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